Queijo Artesanal Serrano: organização coletiva, identidade territorial e desenvolvimento na Serra Catarinense

Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Paula Schlichting, engenheira agrônoma, extensionista rural, integrante do Projeto Queijo Artesanal Serrano.

 

A história do Queijo Artesanal Serrano começa no início do século XVIII, ligada ao tropeirismo e à ocupação das primeiras propriedades rurais na Serra Catarinense. Ao longo de mais de dois séculos, foi se consolidando um saber-fazer passado de geração em geração, profundamente conectado às condições naturais do território — como o clima, a altitude, o solo e a vegetação nativa — que conferem ao queijo características únicas.

Hoje, estima-se que cerca de duas mil famílias produzam o Queijo Artesanal Serrano na Serra Catarinense. A atividade está presente, em sua maioria, em propriedades familiares voltadas à pecuária de corte, com produção baseada em métodos tradicionais, mão de obra da própria família e baixo nível de mecanização. O queijo é feito com leite de vacas de raças de corte ou mistas, alimentadas principalmente com pastagens nativas, o que resulta em um produto de maior teor de gordura, textura amanteigada e sabor que se intensifica com o tempo de maturação.

Desde 2008, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) tem papel fundamental no fortalecimento do Queijo Artesanal Serrano. A instituição atua na capacitação dos produtores, com orientações em Boas Práticas Agropecuárias e de Fabricação, na organização da cadeia produtiva, na construção de marcos legais e na promoção do produto em concursos, feiras e eventos técnicos. Esse trabalho foi decisivo para a valorização do queijo, a formalização das queijarias, a abertura de novos mercados — como o acesso ao Selo ARTE — e o fortalecimento do turismo rural e gastronômico na região.

Nesse processo de organização coletiva, nasceu e hoje se destaca a atuação da Associação de Produtores de Queijo Artesanal Serrano (Aproserra), fundada em 13 de junho de 2013, a primeira associação de queijos artesanais de Santa Catarina. A Aproserra representa os produtores dos 18 municípios da Serra Catarinense, território oficialmente delimitado para a produção do queijo no estado. Em parceria com a Epagri e outras instituições, a Associação teve papel central na construção do Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) do Queijo Artesanal Serrano, que embasou a Lei nº 17.003/2016, garantindo critérios alinhados ao modo de fazer tradicional, às características do território e às exigências sanitárias. Soma-se a isso o reconhecimento do queijo como Patrimônio Cultural de Santa Catarina, concedido pela Fundação Catarinense de Cultura em 2018.

Imagem: Divulgação

Ao longo de sua trajetória, a Aproserra também contribuiu para conquistas importantes, como a obtenção da Indicação Geográfica “Campos de Cima da Serra”, na modalidade Denominação de Origem (DO), concedida à Federação das Associações de Produtores de Queijo Artesanal Serrano de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Faproqas), da qual a Associação faz parte.

No campo das políticas públicas, destacam-se ainda dois projetos viabilizados com recursos do Programa Santa Catarina Rural, que possibilitaram investimentos da ordem de R$ 1 milhão, beneficiando diretamente 35 famílias produtoras. Esses recursos foram aplicados na construção e adequação de agroindústrias, melhorias nos sistemas produtivos e investimentos em infraestrutura, contribuindo para a viabilidade técnica, sanitária e econômica da atividade e para a consolidação da produção do Queijo Artesanal Serrano no território.

Atualmente, a Aproserra vive um momento de reestruturação e renovação, que convida os produtores a estarem mais próximos, participativos e unidos. Entre os principais desafios estão o fortalecimento da governança da Denominação de Origem, a ampliação da base de produtores associados e a manutenção da qualificação técnica frente às exigências do mercado e da legislação. Mais do que desafios, esse cenário representa uma oportunidade de fortalecimento coletivo, consolidando a identidade do Queijo Artesanal Serrano e ampliando seu papel como indutor do desenvolvimento sustentável da Serra Catarinense.

 

Foto de destaque: Aires Mariga/Epagri

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